O chamado da montanha sagrada

29 de dezembro de 2009 § Deixe um comentário

A península do monte Athos está virtualmente isolada da Grécia, mas ainda atrai homens em busca da fé.

Robert Draper
Foto: Travis Dove

O chamado da montanha sagrada

A antiga comunidade monástica do monte Athos, no norte da Grécia, ainda atrai homens com fome espiritual. Apanhando caquis no lusco-fusco, um monge cristão ortodoxo leva uma vida muito parecida com a de seus confrades de mil anos atrás.

A península sagrada do monte Athos avança 50 quilômetros para dentro do mar Egeu, feito um apêndice lutando para se destacar do corpo secular no nordeste da Grécia. Nos últimos mil anos, uma comunidade de monges da Igreja Ortodoxa do Oriente habita a região procurando se afastar de tudo que não seja Deus.

Seu enclave, marcado por ondas violentas, densas florestas de castanheiros e o espectro rajado de neve do monte Athos, de 2 033 metros, é a própria essência do isolamento. Vivendo em algum dos 20 monastérios, em um dos 12 claustros autônomos dentro deles, os quais abrangem, no total, centenas de celas, os monges se isolam até mesmo uns dos outros. Ostentando pesadas barbas e trajes negros gastos, sinalizando sua morte para o mundo, parecem saídos de um afresco bizantino. Eles constituem uma fraternidade ritualística imperecível, de radical simplicidade, em constante devoção a Deus – não obstante suas imperfeições. Sim, pois existe a consciência, como explica um monge ancião, de que, "mesmo no monte Athos, somos seres humanos a caminhar a cada dia no fio da navalha".

São todos homens. De acordo com os costumes, mulheres estão proibidas de visitar o lugar desde seus primórdios, uma postura nascida antes da fraqueza que do despeito. Como diz um monge, "se as mulheres pudessem vir, dois terços de nós partiriam com elas para se casar".

O monge corta os laços com sua mãe para estabelecer outros com a Virgem Maria, figura sagrada que, reza a lenda, teve seu barco desgarrado pelos ventos ao navegar para Chipre, indo parar no monte Athos. Ali abençoou seus habitantes pagãos, que se converteram ao cristianismo. Cada monge cria uma ligação com o abade de seu monastério ou com o companheiro mais velho de cela, que se torna seu pai espiritual e o ajuda a estabelecer "um relacionamento pessoal com Cristo", como frisa um deles.

O afastamento ou a morte de uma dessas eminências podem ser penosos para os mais novos. Por outro lado, a decisão de um jovem de retornar ao mundo exterior também pode ser traumática. "No ano passado, um deles se foi, sem pedir minha opinião", diz um monge idoso, num tom que denuncia o ressentimento paterno. "Sendo assim, melhor mesmo que se tenha ido."

Os monges cristãos (a palavra monge deriva do grego monos, ou "singular"), inicialmente, formavam refúgios coletivos, ou monastérios, no deserto egípcio, durante o quarto século.

A prática disseminou-se pelo Oriente Médio e pela Europa, sendo que, lá pelo nono século, os eremitas chegaram ao Athos. A partir daí, à medida que a civilização se tornava mais complexa, multiplicavam-se os motivos para se manter distância da sociedade e optar pela vida monástica. De fato, depois que duas guerras mundiais e o evento do comunismo (o qual impedia a emigração da Rússia e do Leste Europeu) reduziram a população dos monastérios para 1 145 pessoas em 1971, as últimas décadas assistiram a um renascimento. Um fluxo constante de jovens – muitos graduados em universidades e em bom número advindos do ex-bloco soviético – fez inflar os quadros do monte Athos para cerca de 2 mil monges e noviços. Ao mesmo tempo, a entrada da Grécia na União Europeia, em 1981, habilitou a península a receber fundos de preservação.

"Há 2 mil histórias aqui, cada qual descrevendo um percurso espiritual", diz o padre Maximos, cujo próprio caminho se iniciou em Long Island quando ele, adolescente, era devoto de músicos da vanguarda pop, como Lou Reed e Leonard Cohen, antes de se tornar professor de teologia em Harvard para, em seguida, optar por "viver mais próximo de Deus".

Muitas dessas jornadas começam de forma atribulada. Um garoto ateniense foge de casa. Daí, quando seu irmão aporta no monte Athos para buscá-lo, o rapazote adverte: "Vou fugir de novo". O filho de um merceeiro de Pittsburgh, nos Estados Unidos, surpreende os pais com sua decisão, a qual, dois anos depois, ele reconhece que pode ser temporária, argumentando: "Quem há de saber quais são os planos de Deus?"

Se o aspirante não está pronto, o pai espiritual o estimula a voltar para casa. Do contrário, ele passará pela tonsura à luz de velas: o abade raspa uma cruz em seu cocuruto e outorga-lhe o nome de um santo. Assim nasce um monge.

As histórias dificilmente acabam com a chegada ao monte Athos. Um obstinado hippie da Austrália passou de Peter a padre Ierotheos, tornando-se cantor – barítono – no monastério Iviron. O padre Anastasios aprendeu a pintar ali, e agora exibe seus trabalhos em lugares tão distantes quanto Helsinque, na Finlândia, e Granada, na Espanha. E o padre Epiphanios, que resolveu restaurar os antigos vinhedos de Mylopotamos, hoje exporta um excelente vinho para quatro países, além de ter publicado um livro com as receitas dos monges em três idiomas.

Na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, a irmandade consiste em homens que, ao fim e ao cabo, não deixam de ser quem são, seres de carne e osso debaixo de seus hábitos. Uns, independentes por natureza, optam por recolher-se em celas no campo. Outros se revelam mesquinhos e, diz um monge, nota-se que "a vida monacal pode ser consumida por ninharias".

No entanto, os melhores entre eles não apenas irradiam boa vontade como também procuram aplicá-la naquilo que é mais necessária. O padre Makarios, do monastério de Marouda, perto de Karyes, é desse naipe, sempre disposto a ceder a estranhos seu casaco sobressalente, os cômodos disponíveis de seus aposentos e o dinheiro que traz no bolso. "Quem tem fé verdadeira", sustenta esse monge de 58 anos, dono de vívidos olhos verdes, "tem também liberdade. Tem amor."

Os monastérios são tudo, menos blocos monolíticos. O Vatopediou, à beira-mar, está repleto de tesouros bizantinos e ambições – entre seus monges há um regente musical que trabalha em período integral. Por outro lado, o monastério Konstamonitou, agrário, abraça um estilo de vida rústico, sem eletricidade ou donativos da União Europeia. Já o Simonos Petras, suspenso acima de uma infinita paisagem marinha, parece agarrado à escada que leva aos céus.

Alguns monges se atêm à aridez de choças mambembes ao longo das encostas íngremes do monastério Karoulia. Outros ainda optam pelo fanatismo. É o caso dos residentes do Esfigmenou, monastério milenar durante muito tempo atormentado por piratas, incêndios e repressores otomanos, e que agora se vê vitimado pelo próprio radicalismo. Ao renunciar à política dos Patriarcas Ecumênicos de diálogo com outras denominações cristãs, aferrando-se ao lema “Ortodoxia ou morte”, a irmandade do Esfigmenou foi banida pelo corpo dirigente do monte Athos, conhecido como a Sagrada Comunidade. Eles agora subsistem em desafiadora ilegalidade de doações de simpatizantes espalhados pelos quatro cantos do mundo externo. "Prosseguiremos em nossa luta", declara seu abade renegado. "Depositamos nossas esperanças em Cristo e na Virgem Santa – e em ninguém mais."

Algo como 2 mil trabalhadores não religiosos dividem o território da península com o mesmo número de monges. O monte Athos faz parte da Grécia desde 1924. A sede do governo local é Karyes, a encardida capital onde são depositados os carregamentos vindos de longe e os recém-chegados peregrinos ortodoxos. (Os visitantes precisam solicitar uma autorização especial. A Sagrada Comunidade admite levas de cerca de 100 homens por até quatro dias.)

Encruzilhada em que se fundem o perene e o transitório, Karyes exorbita em contradições: um monge manquitola pela rua com uma bengala de galho retorcido em uma mão e, na outra, uma valise da Nike. Lojas oferecem velas, terços e garrafas de ouzo, a aguardente grega. A polícia tem de lidar com ocasionais bebedeiras em público ou roubos em lojas. Além disso, Karyes sedia a Sagrada Comunidade, o mais antigo Parlamento em atividade no mundo. Seus membros se debruçam sobre assuntos importantes, como as relações com a União Europeia, ou mínimos, como definir quem vai alugar uma loja.

O lugar tem sobrevivido dobrando-se quando é preciso, embora sempre com relutância. Santo Anastácio, fundador do monastério Megistis Lavras, em 963, enfureceu os eremitas ao introduzir uma arquitetura ousada em uma região rústica por excelência. Estradas e ônibus, depois eletricidade e telefones celulares, têm sido fonte de apreensão. A última transgressão foi a internet. Alguns monastérios fizeram pela rede encomendas de peças de reposição, se comunicaram com advogados, navegaram em sites de pesquisa acadêmica. "A maioria dos monges nem sequer sabia sobre os ataques às torres de Nova York, em setembro de 2001", adverte um monge.

Os religiosos mais novos têm educação universitária, laptops e pouca experiência em criar galinhas. E persistem as preocupações de que os donativos da União Europeia só terão continuidade se atrelados a exigências – tais como a permissão de visita de mulheres à península. Do jeito que a coisa vai, o monte Athos não poderá evitar o confronto com as questões terrenas.

Todavia, a irmandade avança à maneira usual: milímetro a milímetro, glorificando o mundo oculto – "digerindo a morte", nas palavras de um de seus mais proeminentes luminares, o padre Vasileios, "antes que ela nos digira".

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

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